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quinta-feira, 13 janeiro 2022 15:17

Juan Manuel Morales: “Precisamos que o mercado único reconstrua a nossa economia”

O setor está a sofrer uma transformação “massiva”, ao nível digital e da sustentabilidade, e depara-se com desafios relativos ao mercado único e à livre concorrência. Estes são os desafios apontados como prioritários pelo novo presidente do EuroCommerce, Juan Manuel Morales, que assumiu o mandato a 1 de julho. “Precisamos que o mercado único reconstrua a nossa economia e estimule o crescimento, e esta não é certamente a altura de fechar e dividir mercados, na Europa e ao nível mundial”, sustenta o primeiro espanhol no cargo. A ambição é ajudar a organização a ter uma visão mais completa do cenário europeu do comércio retalhista e grossista.

Store Magazine | Foi eleito com o apoio ibérico e é o primeiro presidente espanhol do EuroCommerce. O que significa isto para si?

Juan Manuel Morales | Sinto-me muito orgulhoso e honrado por ser o primeiro de Espanha ou, na verdade, da Península Ibérica a ser eleito presidente do EuroCommerce. Tal foi alcançado com o apoio unânime dos membros da assembleia e vou trabalhar arduamente para refletir a confiança que os membros do EuroCommerce depositaram em mim. Considero que o meu trabalho é orientar esta importante associação europeia, no sentido de maximizar o seu potencial enquanto representante do maior empregador do setor privado e um interveniente importante na economia europeia.

O EuroCommerce existe para fazer com que os decisores e todas as partes interessadas compreendam melhor o papel vital que o comércio retalhista e grossista tem na vida de cada cidadão europeu, e para defender políticas que permitam que o nosso setor faça isso de forma eficiente. Isso significa, entre outros objetivos, a remoção de barreiras desnecessárias para consolidar a Europa e o seu mercado único após os desafios dos últimos 18 meses com a Covid-19.

Considera que foi aberta uma oportunidade para os países do sul da Europa?

Já faço parte do EuroCommerce há algum tempo e sei que sempre visou representar os interesses de todos os membros de forma justa e equitativa, e essa será também a minha ambição. Logo, não é realmente uma questão de norte e sul, mas de interesses comuns que todos nós, no comércio retalhista e grossista, partilhamos, com vista a ajudar o nosso setor num momento de transição rápida, fundamental e de transformação para nos anteciparmos e ajustarmos às exigências e expectativas em constante mudança dos consumidores.

Dito isto, cada empresa de comércio retalhista e grossista enfrenta desafios subtilmente diferentes, e cada país tem hábitos e gostos diferentes. Por isso, espero que, ao ser capaz de partilhar a experiência de Espanha e Portugal, ajude a organização a ter uma visão mais completa do cenário europeu do comércio retalhista e grossista.

Tem 20 anos de experiência no setor de FMCG. Que lições retiradas da sua experiência pode aplicar nesta nova função?

Se posso retirar uma lição da minha experiência nos setores do fabrico e do comércio retalhista, é que nada permanece igual. Tal está intrínseco no termo FMCG, não só são bens de consumo que têm uma rápida rotatividade e vendas a grande escala, como as tendências no mercado são igualmente dinâmicas.

Atualmente, está a ocorrer uma transformação massiva no nosso setor, ao nível digital e de sustentabilidade. Para sermos bem-sucedidos e, em último caso, sobrevivermos, ninguém neste mercado, sejam fornecedores ou retalhistas e grossistas, pode descansar à sombra dos louros e continuar a fazer o mesmo que fazia ontem. Os consumidores procuram qualidade, conveniência e inovação a um preço razoável, e se um produto ou retalhista não oferece o que ele quer, como e onde quer, vão a outro lugar.

Quais são os temas prioritários a tratar?

Não ficarão surpreendidos se eu disser que o comércio retalhista e grossista está na linha da frente da transformação que mencionei: 1) como equipar o setor para um futuro em que a digitalização vai dominar, com necessidade de investimentos significativos na automatização e na combinação de canais online o offline para os consumidores; 2) como produzir o que vendemos, como o vendemos e como gerir o nosso negócio de forma sustentável e circular, com mais instalações para a reparação, a reutilização, a reciclagem, o uso de energias alternativas e medidas para reduzir a nossa pegada ecológica. Todas estas mudanças envolvem um investimento substancial por parte de um setor que opera com margens muito limitadas, e muitas partes deste setor ainda têm de recuperar de confinamentos prolongados e repetidos durante a pandemia. Concretizar esta transformação será um desafio, em especial, para as PME. Como resultado, a sua grande contribuição para o emprego local pode ser reduzida.

Além destes, deparamo-nos com um conjunto de desafios relativos ao mercado único e à livre concorrência, colocados tanto pelos governos como por alguns agentes económicos. Precisamos que o mercado único reconstrua a nossa economia e estimule o crescimento, e esta não é certamente a altura de fechar e dividir mercados, na Europa e ao nível mundial.

Quando assumiu a presidência mencionou que estavam sob “enorme pressão regulatória e normativa num setor de baixa rentabilidade”. Qual é a estratégia do seu mandato para mudar esta situação?

Tal como disse, operamos com margens muito limitadas – normalmente 1 a 3% em termos líquidos –, e isto satisfaz os consumidores europeus, com preços altamente competitivos e um nível de serviço, tanto para os consumidores como para os fornecedores, pelo qual cobramos muito pouco. Contudo, ao mesmo tempo que isto estimula a concorrência, também nos deixa vulneráveis – um imposto mal concebido ou uma medida regulatória que adicione custos insustentáveis pode representar a diferença entre um negócio próspero e um que terá de encerrar a atividade.

Apesar dos esforços para melhorar a regulamentação, o seu volume tende a aumentar e não a diminuir. Isso não significa que a regulamentação seja necessariamente má – pode fazer com que os mercados funcionem melhor. Mas é por isso que é tão importante usar a força da cooperação no EuroCommerce para, de forma coordenada, pressionar os decisores, para que estes entendam como o setor funciona e acreditar que estaremos lá, independentemente dos obstáculos e da regulamentação desnecessária que nos sejam impostos. Pode levar a resultados que os decisores não previram ou desejaram.

E para que haja uma retoma da economia perante a sombra das grandes potências online concorrentes?

Já existem sinais promissores de recuperação, mas são frágeis. Uma nova onda do vírus pode interromper esta recuperação. O comércio retalhista e grossista está particularmente exposto a alterações na confiança do consumidor e do negócio, mas também está bem colocado para ajudar a impulsionar a recuperação económica. Mas precisam das condições adequadas e do apoio para o fazer.

Os concorrentes online observaram o crescimento exponencial das suas vendas durante a pandemia, quando muitas lojas foram obrigadas a fechar as portas. Isto acelerou uma tendência que já estava a crescer rapidamente e que vai manter-se, visto que as pessoas veem as vantagens. Também foi claro que os retalhistas que também tinham uma presença online foram os que mais facilmente sobreviveram à pandemia. Logo, os modelos online-offline-omnicanal e variações destes três serão o futuro para todos os retalhistas.

Antes da crise, 70% dos retalhistas não tinha presença online. As associações locais de retalhistas e as câmaras do comércio mostraram que podem desempenhar um papel fundamental no aumento da sensibilização e na oferta de aconselhamento a empresários de PME. Adaptaram-nas às suas necessidades específicas, salientando a importância e as oportunidades de ter uma presença online e como fazer para construir uma presença que fosse adequada para os negócios dos retalhistas. Em alguns casos, isto pode significar dar resposta a necessidades muito básicas, tais como um site que mostre onde estão localizados, o horário de funcionamento, e que produtos e serviços podem oferecer.

Reforçar o Level Playing Field no contexto do Mercado Único Europeu é uma solução?

A Europa vai injetar 750 mil milhões de euros na economia durante os próximos cinco anos, e isso vai ajudar a reerguer as nossas economias. Mas um estudo recente realizado pelo Parlamento Europeu sugeriu que um mercado único para bens e serviços, que funcione corretamente, pode impulsionar a economia europeia em 650 mil milhões de euros por ano.

O mercado único pode ser um poderoso motor de recuperação e crescimento, e nós, enquanto setor, já dependemos dele para fazer o nosso trabalho de fornecer aos nossos consumidores aquilo de que precisam. A Comissão declarou que, como parte do plano de recuperação, irá atribuir mais energia e recursos para que o mercado único funcione. Só posso agradecer sinceramente por isso.

A crise ligada à pandemia irá acentuar a requalificação e serão exigidos apoios para a criação de novos postos de trabalho. Qual é a sua visão nesta matéria?

Isto é algo que já salientámos à Comissão Europeia – o nosso setor tem um forte historial de formação e desenvolvimento de pessoas, fazendo crescer um em quatro trabalhadores no comércio retalhista europeu sem educação secundária. Contudo, com a transformação digital e de sustentabilidade, haverá uma enorme pressão para fomentar ainda mais este aspeto.

O ritmo acelerado da mudança vai resultar na reafetação de partes da nossa população ativa, na formação e na aquisição de novas aptidões para aceitar empregos novos e mais gratificantes, inclusivamente empregos que envolvam a interação com sistemas digitais sofisticados e aptidões interpessoais, como, por exemplo, o aconselhamento e a ajuda a clientes. Vai ser necessária a ajuda pública na prestação de formação de competências, para este aspeto e para a sobrevivência de muitos negócios. O futuro das lojas em ruas comerciais está em risco devido à Covid-19: em alguns países, os especialistas preveem que cerca de 20 a 30% das lojas fechem as portas para sempre. Consequentemente, nós e as nossas associações afiliadas em toda a Europa estamos a pedir que as autoridades nacionais e locais apoiem as pequenas empresas retalhistas durante a transição, ajudando nas aptidões digitais para manter centros de vilas e de cidades vivos e atrativos.  

E quanto à igualdade de género neste setor?

O nosso setor é fundamental para o emprego das mulheres: cerca de 62% dos trabalhadores do comércio retalhista são mulheres, em comparação com uma média de 46% em toda a economia na Europa. Num setor sistematicamente empenhado na formação dos seus trabalhadores, para que aceitem novos desafios e responsabilidades, as mulheres estão bem representadas na administração média e elevada, e não só nas lojas. 

A intensificação do diálogo social europeu para abordar estes problemas é uma prioridade?

O EuroCommerce é o único parceiro social europeu reconhecido para o comércio retalhista. Está fortemente empenhado no diálogo social como meio de fazer face a uma série de desafios –incluindo a transformação do nosso setor, como já foi referido.

Precisamos da cooperação e vontade dos nossos trabalhadores e dos seus representantes para dar resposta e antecipar as rápidas mudanças relativamente ao que os clientes esperam. Uma relação saudável e construtiva entre empregadores e trabalhadores é fundamental para isso, assim como assegurar que todos os que trabalham para nós o fazem num ambiente seguro e agradável.

Esta entrevista pode ser lida na íntegra na Store Magazine

Fonte: Store